segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Restaurante

Ela sussurrou no ouvido da amiga. Riram-se. Olhou em direção a outra mesa, e o olhar dela encontrou outro olhar. Tão intimo, intenso, tenebroso até. Ela desviou. Àquela sensação de encarada, observada, de ter em si analisado cada centímetro entre boca e olhos, a incomodou um pouco. Pegou o copo e direcionou-o a boca. O gole fresco de vinho levemente doce, foi como que a dose a mais de sangue que seu coração precisava pra não bater tão desesperado daquela forma, enquanto agora, olhava ora a mesa, ora os pés freneticamente chaqualhados.  Ela queria olha-lo, encará-lo, desenhar com os olhos cada linha tão bem contornada. Mas receava . Receava encontrar novamente, tão direto, aqueles olhos castanhos como ... Como, não há o que comparar com àqueles olhos. Eram castanhos... E encantadores. Mas ela tinha medo, não era lá uma moça de muitas aventuras, nem de atitudes fortes. Era uma dama, que gostava de ser tratada como dama e de não ser encarada. E mesmo que desejasse o rapaz, do modo mais humano que se possa desejar. Queria que aquele momento passasse logo, que ele fosse embora ou que a amiga terminasse depressa o prato, para que fossem. Imagina se nos encontramos na saída? Indagava ela, com ela mesma.  - Não eu morreria! continuava a dizer. O garçom passou por entre as mesas, interrompendo seus pensamentos, trazia a conta que ela nem vira a amiga pedir. Estava distante demais - pensando na conta, e na porta, em sua casa, em não encontrar o rapaz, mas ao mesmo tempo em tê-lo, em poder olha-lo - que nem vira a amiga pedir a conta, ela, novamente, dizera a ela mesma. Pagaram. Como uma criança que quer sair por entre as pernas da mãe, ela ansiava pela porta. Levantou-se com seu corpo magro e alto, deixou a ponta dos cabelos, antes sobre a cadeira, fazer-lhe a curva da cintura e pisou, calma e delicadamente como sempre, pisou. Mas o coração pulsava... E ela  temia - Tomara que ele não me olhe, que ele não me olhe. Era quase como uma prece. Uma prece interrompida, pela cadeira afastada na tentativa de sair da mesa - que acabou por esbarrar-se nela - Manteve-se estática, sem ar, sem chão. Ela nunca acreditara em nada a primeira vista, aquilo lhe assustava bastante. Parecia até uma criança. - Era a cadeira, dele. Era ele. Fixou o olhar novamente no dela, e nada disse. Os olhares conversavam entre si. O mundo havia parado. Ela dividia-se entre uma  conversa íntima com o outro e com ela mesma. Com o outro: Sabe-se lá o quê. Era tão intimo, tão divino que nem ela sabia. Com ela: Questionava. Tentativa de saber porque tanto medo. Origens, motivos. Vasculhava o arquivo que tinha dentro de si e ansiava que aquilo a deixasse. Como uma criança que quer sair por entre as pernas da mãe, ela ansiava pela porta.  - Perdão, disse ele. Ela sorriu e virou-se. Caminhou calma e delicadamente. Saiu.

Um comentário:

Tati disse...

Estavas drogada quando escreveu esse droga dessa maravilha dessa frase?

'Fixou o olhar novamente no dela, e nada disse. Os olhares conversavam entre si. O mundo havia parado.'

Ela ficou aqui, pendurada entre as mordidas das horas cravadas nos meus lábios...
Parabéns pela sutileza e pelo envolvimento!